Até o dia 15 de junho, a Construtora Biapó realiza a exposição Canteiros – Reconstruir a História, com colagens e pinturas de Fernando Madeira e esculturas em madeira de Sandro Cunha, no Palácio Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Avenida Pasteur, n. 250, Urca).

O horário de visitação pública é de segunda a quinta-feira, das 9h às 16h, e sexta-feira, das 9h às 15h. Para agendar visitas guiadas, ligue para (21) 2580 4592.

Estrutura da exposição

biapo2Restauração da cobertura da Capela de São Pedro de Alcântara, no Palácio Universitário da UFRJ

Na entrada principal, estão as obras do arquiteto Fernando Madeira, com peças de assemblage (colagens) e pinturas, e as esculturas em madeira de Sandro Cunha, escultor e coordenador de obras da Biapó.

Próximo à escadaria de acesso da Capela São Pedro de Alcântara, pode ser visto o resultado das experimentações artísticas realizadas com material sustentável. E no topo de acesso ao local, estão os textos e as imagens das intervenções da obra de restauro do Palácio Universitário. O registro diário das etapas gerou um significativo acervo de imagens, que, uma vez compartilhado, envolve a comunidade em todo o processo, tornando-a consciente de sua história e identidade.

Segundo Sandro Cunha, o convite para expor foi uma surpresa. “Toda vida gostei de fazer esculturas, mas nunca tive nenhuma pretensão de expor. Sinto uma felicidade imensa, especialmente por poder contar com o apoio da empresa onde trabalho há 20 anos. É muito gratificante”, disse, acrescentando que sempre fez o que gosta sem a preocupação de ser ou não artista. “Quem está abrindo meus olhos para essa outra dimensão do meu trabalho é a historiadora Marilia Chang. Mas, de qualquer forma, vou continuar trabalhando nas minhas esculturas. Independente de qualquer coisa, quando você faz algo que gosta, é diferente”, garante. E com a exposição, está tendo a oportunidade de rever suas primeiras peças, com as quais não tinha contato há muito anos, como é o caso da escultura de São Joaquim. “É interessante poder ver a evolução do meu trabalho ao longo dos tempos, como vão mudando os traços”, conta o escultor.

O evento também traz boas lembranças para o arquiteto Fernando Madeira, que começou a estudar justamente no Palácio Universitário. “É muito simpático voltar ao lugar onde passei parte da minha vida. Nem imaginava que um dia faria uma exposição lá. Andei por caminhos diferentes até iniciar minha carreira como pintor, há 30 anos, e não tinha preocupação em mostrar. Está sendo muito legal, fico contente”, afirmou, dizendo ainda que, ao escolher suas obras para a exposição, procurou estabelecer um diálogo com o trabalho artístico de Sandro.

Conheça os artistas:

biapo1Fernando Madeira – Obra n° 3 da série “Cães e Festas” (2014): técnica mista; Pintura sobre colagem sobre bandagem cirúrgica

Fernando Madeira é artista, arquiteto e especialista em restauro. Seu vínculo com a arte antiga vem certamente de seu lugar de nascimento, Angra dos Reis, um dos mais belos conjuntos urbanístico-arquitetônicos do período colonial brasileiro.

De acordo com a professora do Instituto Rio Branco e da Universidade de Brasília (UnB), Angélica Madeira, ainda criança, Fernando assistiu à demolição de sua cidade em nome do progresso, e esse fato está certamente na origem de muitas de suas escolhas, que parecem querer salvar o tempo, amparar a ruína e tudo o que está se acabando.

Como arquiteto, participou da restauração de muitas igrejas, capelas e casarões no interior de Goiás, na Cidade de Goiás, em Pilar, Luziânia, Jaraguá, onde encontrava pedaços de madeira, livros velhos ou semi-incinerados em estantes abandonadas que, sem serventia para o restauro, seriam jogados fora ou queimados.

Entretanto, nas mãos do artista, tornaram-se, por exemplo, os “Ex-votos” (1996-1997) – 24 peças em assemblage feitas a partir de madeiras provenientes de casarões e igrejas dos séculos XVIII e XIX. Tendo esses volumes como base, ele trabalha sobre a superfície, adicionando pinturas, colagens, placas de metal, pregos, rodas dentadas, como um fabricante artesanal dessas oferendas.

São três séries presentes no acervo exposto, “Ex-votos”, “Açougue barroco” e “Cães e festas,” que confirmam o forte vínculo da obra de Fernando Madeira com sua experiência como arquiteto. Modelos e detalhes construtivos, com atenção às texturas das bases tratadas como paramentos, domínio técnico do lápis, das canetas e dos pincéis, da técnica das tintas, a aquarela, o guache, o acrílico, as experiências com pigmentos, e a própria predileção da paleta.

As telas pintadas em acrílico e cal, da série “Açougue barroco” (2004-2005), remetem ao Mestre Ataíde, padre Jesuíno de Monte Carmelo, e aos numerosos pintores anônimos, com suas expressões deformadas e fragmentadas. Essa sequência de pinturas enfatiza elementos de arquitetura, sempre em cortes, detalhes de colunas, arcos, cercaduras esplendorosas. Além da referência à arquitetura, encontram-se também aos pedaços, à guisa de estudo, partes do corpo, mãos, pés, torsos, anjos de cabeça cortada.

“Cães e festas” (2011-2015) dá continuidade a pesquisas anteriores relacionadas à colagem e à iconografia barroca. O suporte é todo trabalhado em rica textura obtida pela justaposição de pequenos retângulos que, colados uns aos outros sobre gaze cirúrgica, formam uma superfície rugosa, irregular, como uma parede emboçada com colher, em tons de ocre ou em branco caiado, de onde emergem as figuras. O imaginário que ali se encena remete tanto à religião – anjos, trombetas, nuvens – como aos ícones pagãos, seres híbridos, centauros e cães que se confundem com demônios e fantasmas, todos flutuando em um espaço encurvado, como uma abóboda de berço escavada.

biapoSandro Cunha – Obra “Cristo Morto” (2016): Escultura em madeira

A carreira do artista popular Sandro Cunha teve início em Hidrolândia, interior da Bahia. Grande parte de sua família trabalhava em uma oficina de lanternagem, próxima a uma marcenaria. Aos onze anos, já se encantava com a arte de transformar madeira. Da observação, converteu essa matéria-prima em letras e construiu nomes, o primeiro passo rumo à arte popular.

Mais tarde, em Pilar de Goiás, teve seu primeiro contato com a Construtora Biapó, que realizava o restauro da Igreja Matriz e o contratou. Sandro, além do domínio da técnica, deu forma a sentimentos e inspirações que o transformaram em autodidata. A inspiração e o domínio da técnica são seu maior critério de valor, segundo a historiadora Marília Chang.

Sua primeira peça foi uma carroça puxada por um burrico, que simboliza o árduo trabalho que sempre cercou sua vida e representa um animal marcante no catolicismo, que conduziu a Virgem Maria e esteve presente no nascimento do menino Jesus. Mesmo sem perceber, a religiosidade estava ativa em suas experiências. Seu olhar, cada vez mais aguçado e atento ao trabalho com restauro e aos novos personagens, marcou sua vida. A primeira personalidade que lhe causou grande inspiração foi Veiga Vale, resultando na peça São Joaquim de Botas, a precursora de sua trajetória na arte sacra. Nos idos de 2000 teve a oportunidade de atuar no restauro das obras do grande mestre Aleijadinho, em Congonhas do Campo (MG), o que o fincou na estrada das histórias de vida dos santos e definitivamente na produção artística qualificada e destinada ao culto sagrado.

A arte popular evidencia-se pela produção de peças únicas, pelo arquétipo, por ser fruto da criação individual e pelo compromisso com o próprio artista, tendo como resultado peças excepcionais como as de Sandro Cunha. Podemos observar a delicadeza do olhar de Nossa Senhora das Mercês, a expressão de dor de Jesus Cristo crucificado, com os pés perfurados pelo cravo imponente, ou mesmo a delicadeza dos dedos do Anjo Gabriel sobre um pequeno pedestal. Sandro é tão apaixonado por madeiras que é capaz de usar mais de um exemplar na mesma peça, demonstrando essa mistura somente através da diferenciação das cores.

Veja a divulgação da exposição:

Serviço:

Exposição Canteiros – reconstruir a história

Local: Palácio Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Avenida Pasteur, 250, Urca)

Data: 24 de abril a 15 de junho

Horário: Segunda a quinta, das 9h às 16h; sexta, 9h às 15h

Agendamento de visitas guiadas: ligue para (21) 2580 4592.

Fonte: Textos produzidos pela professora do Instituto Rio Branco e da Universidade de Brasília, Angélica Madeira, e pela historiadora Marilia Chang